Quem jogou os jovens pra direita?
Associada a ideias revolucionárias e progressistas, a juventude vem desafiando a ordem democrática do mundo e se associado às alas mais conservadoras da política. Como desatar esse nó?
O político mais popular do país, hoje, tem menos de 30 anos, é “terrivelmente evangélico”, conservador e de direita. Foi o maior cabo eleitoral do vereador mais votado de São Paulo, que tem 27 anos e o mesmo perfil. O partido mais recente do país - também conservador e de direita - lançou a candidatura de seu principal líder (este, com 41 anos), que aposta no eleitorado jovem para se tornar o “azarão” na disputa deste ano. Em todos os espectros políticos, a aposta em nomes jovens tem sido uma estratégia acertada. Mas, no caso da extrema-direita, há a avaliação de que a voz da juventude brasileira tem valores conservadores profundos e que precisam ser ouvidos.
Afinal, será que existe uma maioria conservadora na juventude brasileira?
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No imaginário popular, juventude e revolução caminham de mãos dadas. À frente de toda convulsão social, jovens carregam bandeiras, de punhos erguidos, exigindo respostas para problemas antigos. Marcado pelo idealismo, os jovens são associados à luta por igualdade, direitos humanos ou justiça - valores comumente associados ao campo progressista.
De fato, nas eleições de 2022, o alistamento de quase 2 milhões de pessoas entre 16 e 18 anos no título eleitoral foi mais ou menos igual à diferença que deu a Lula a vitória sobre Jair Bolsonaro. Então, no Brasil, o pensamento de que os jovens são em geral progressistas se mantém, certo?
Se você ainda se apega a esta visão, não vai conseguir entender as últimas notícias - nem a pesquisa “Juventudes: um desafio pendente”, publicada pela Fundação Friedrich Ebert Stifung do Brasil no fim do ano.
Sim, os jovens estão mais conservadores – bem mais do que nos últimos anos. E o problema não é só nacional. Mas isso não significa que tudo está perdido: no fim do ano passado, analisamos como, se há um boom de jovens conservadores, uma forte reação progressista mostra os caminhos para dialogar e construir junto com esse público. Está claro que os jovens estão com opiniões mais firmes sobre a política. O nó que precisa ser desatado por progressistas é entender, afinal, quais fatores estão movendo essas opiniões.
4 a cada 10 jovens se declaram de direita
Entenda o que isso significa
38% dos jovens brasileiros se declaram de direita e 17% se identificam com a extrema-direita.
44% se declaram de centro, indicando rejeição a rótulos ideológicos clássicos e filiações.
Apenas 18% se declaram de esquerda, percentual menor que em ciclos eleitorais recentes.
66% afirmam que a democracia é a melhor forma de governo, apesar da insatisfação com seu funcionamento.
3 a cada 10, no entanto, já defendem um governo autoritário para o Brasil, mostrando que, junto do conservadorismo, ideias mais radicais ganham força.
57% não confiam nos partidos políticos, e 49% acham que a democracia pode funcionar sem partidos.
58% preferem um “líder forte” a partidos e instituições, sinalizando fadiga institucional com as estrutruas atuais, não automaticamente desejo de ruptura democrática.
61% apontam pobreza, desemprego e falta de acesso a direitos como o principal problema do país.
55% defendem que o Estado deve garantir políticas de emprego, inclusive entre jovens que se dizem de direita.

Nos últimos meses, levantes juvenis em diferentes partes do mundo passaram a alimentar uma leitura comum: a emergência de uma juventude hiperconectada, crítica ao sistema político tradicional e pouco alinhada a rótulos ideológicos clássicos. Esses movimentos não se organizam por partidos nem giram em torno de programas fechados. O traço comum é a rejeição às regras do jogo como elas existem hoje e a busca por outras formas de participação.
No Brasil, esse fenômeno encontra um terreno particular. Aqui, por enquanto, quem melhor sabe capturar essa energia é a extrema-direita, há anos especializada em se apresentar como força antissistema, mesmo quando ocupa posições centrais de poder. O discurso da ruptura e da rejeição à classe política tradicional funciona como linguagem de identificação para uma juventude que não se sente representada, ainda que essa promessa raramente se traduza em mudanças estruturais reais.

Por isso, olhar apenas para a autodeclaração ideológica dos jovens não basta. Os dados mostram que o desalinhamento não é com a democracia, com o Estado ou com a ideia de liderança. É com quem governa e como governa. O desejo que emerge não é apenas o de trocar figuras, mas o de questionar uma classe política inteira (e as regras que organizam o acesso ao poder).
Esse diagnóstico é profundamente geracional. Os jovens de hoje não viveram ciclos anteriores da política brasileira e avaliam a democracia sem referência a períodos de maior expansão de direitos ou mobilidade social. Seu ponto de partida é o contraste entre a promessa de futuro com a qual cresceram e a experiência adulta marcada por crise, instabilidade e incerteza. A democracia, para eles, é medida pelo que entrega agora.
Essa frustração se conecta diretamente às transformações no mundo do trabalho e da tecnologia. O futuro deixou de ser uma promessa organizada. Carreiras se tornam instáveis, o esforço individual parece insuficiente para garantir segurança e muitos jovens não se sentem cuidados, inseridos ou reconhecidos pelas políticas públicas. Falta perspectiva — e falta um horizonte onde seus projetos de vida pareçam caber.
Em 2022, esse cenário produziu silêncio. Quatro anos depois, a ausência de mudanças estruturais torna essa geração mais vocal e mais disposta a se expressar politicamente, ainda que de forma fragmentada e distante das identidades tradicionais. Por isso, a “bandeira política” nem sempre acompanha as opiniões concretas dos jovens sobre cada tema.
A disputa que se coloca, portanto, não é entre esquerda e direita, nem entre continuidade ou ruptura abstrata. É uma disputa por respostas concretas a problemas reais — e por futuros possíveis de imaginar em um tempo marcado pela incerteza. É nesse terreno, mais do que nos rótulos, que a política de 2026 começa a ser disputada.
Tópicos com MAIOR abertura entre jovens (base para agenda progressista)
Educação e saúde públicas
→ 86% defendem que o Estado priorize educação e saúde.
Emprego e políticas de trabalho
→ 55% afirmam que cabe ao Estado garantir políticas de emprego;
→ 61% apontam pobreza e desemprego como principal problema do país.
Proteção ambiental
→ 85% defendem a proteção do meio ambiente como prioridade pública.
Redução das desigualdades / redistribuição
→ 60% apoiam imposto adicional sobre os mais ricos para redistribuir renda.
Regulação de plataformas digitais
→ 71% defendem a regulamentação das plataformas digitais.
Tópicos com MENOR abertura ou maior resistência entre jovens
Legalização do aborto
→ Apenas 33% apoiam a legalização;
→ 51% se declaram contrários;
→ 16% não têm posição formada.
Partidos políticos como mediadores da democracia
→ 57% não confiam nos partidos;
→ 49% acreditam que a democracia pode funcionar sem eles.
Agenda institucional tradicional (Legislativo e Presidência)
→ 45% desconfiam da Presidência;
→ 42% desconfiam do Legislativo.
Pautas da “guerra cultural”
→ Alta taxa de indiferença em temas morais e de costumes, indicando baixa mobilização positiva.
Caminhos possíveis para uma agenda progressista efetiva

1. Mulheres jovens: onde o progressismo é mais nítido
Em todos os recortes sociais, mulheres tendem a se posicionar de forma mais progressista do que homens. Entre jovens, essa diferença se acentua. 20% das mulheres jovens se declaram de esquerda, contra 16% dos homens, e elas priorizam com mais força políticas públicas: 65% apontam saúde, educação e combate à pobreza como centrais. Essa distância não é simbólica, é material. Mulheres jovens são mais afetadas pela precarização do trabalho, pela desigualdade de renda e pela sobrecarga de cuidados, o que torna mais evidente a necessidade de proteção social e ação do Estado. Em uma cultura patriarcal, onde vozes femininas tendem a ser menos ouvidas, ampliar a escuta das mulheres jovens não é apenas representativo é onde o progressismo aparece de forma mais consistente e concreta.
2. Melhor idade: o presente como trincheira política
Enquanto a juventude deixa de ocupar sozinha o papel de “grupo coringa” do campo progressista, outro movimento se consolida: pessoas mais velhas passam a demonstrar maior aderência a ideias progressistas, especialmente quando associadas a políticas públicas concretas. Esse deslocamento não se dá por identidade ideológica abstrata, mas por experiência direta. Saúde pública, medicamentos, benefícios sociais e políticas de renda deixam de ser promessa e passam a ser presença no cotidiano.
Diferente dos jovens, que olham para o futuro e enxergam incerteza, pessoas mais velhas olham para o presente e sabem exatamente o que não podem perder. É nesse contraste que tendências antissistema perdem força: promessas vagas de ruptura oferecem pouco a quem já entendeu o valor da estabilidade e da proteção social. À medida que a expectativa de vida cresce e a qualidade de vida melhora, a participação política das pessoas mais velhas deixa de ser defensiva e passa a ser afirmativa. Incorporar esse grupo ao centro do debate não é olhar para trás. É reconhecer que viver mais também significa participar mais das decisões sobre o agora.
Não, não estamos ignorando a crise na Venezuela. Mas, na primeira newsletter do ano, quisemos fazer conscientemente o exercício que sempre defendemos no Brief: não deixar nosso olhar ser sequestrado pelo noticiário imediato, pelo ritmo frenético das manchetes e pela urgência. Em vez disso, escolhemos suspender o ruído por um instante e voltar a atenção para aquilo que é estratégico, estruturante e capaz de abrir uma visão de futuro.
Essa não é, portanto, uma conversa apenas sobre eleições ou governos. É uma reflexão sobre como abrir diálogo e disputar ideias de igual para igual, acolhendo — com escuta de verdade — as formas de pensar das mentes que já estão construindo o mundo em que vivemos e que continuarão moldando o que vem pela frente.
Um abraço,
Hiago Vinícius, do Projeto Brief.





Já escrevi sobre e tenho pensado muito sobre isto também. No caso do Brasil, a esquerda do poder envelheceu muito mal e parou no tempo, não sabe mais quem é a juventude do país. A tal ''Missão'' é um componente perigoso e explosivo para as eleições que não pode ser menosprezado ou ridicularizado. Surgem com um discurso violento, preconceituoso e sedutor aos jovens decepcionados com a política institucional.
Que 💩 hein!!!! Um bando de ignorantes prontos para destruir a democracia que não construíram, isso sim. Massinha de manobra da direita. Parabéns pela falta de 🧠